sinal

Chegando do Vietnã, eu passei uns 10 dias doente em Bangkok. Mascando catarro feito chiclete, saindo do quarto apenas para ir ao Seven Eleven ao lado do hotel para comprar sanduiche de atum e Gatorade (ou cactorante, como alguns mais criativos gostam de chamar). Era um momento emocional difícil, que acabou provocando gripe, garganta inflamada, alergias e me derrubando completamente.

Nisso fui postergando minha ida a Burma, rodando pela área mais turística e fake de Bangkok, que é a Khao San Road. Fiz amizade com um venezuelano e uma uruguaia, que a cada seis meses vão à Tailândia comprar roupas para suas lojas na Europa. Também passei um bom tempo conversando com um indiano que tem loja lá na rua. E reencontrei minha amiga Cris, que conheci no Camboja.

Mas foi durante um papo com um gringo maluco, que passou horas me contando das suas incríveis peripécias para fazer seu filme (duplo sentido aqui), no sul da Tailândia, que recebi o sinal mais claro de que estava na hora de seguir viagem.

Eis que o músico do bar (quase todos os bares tem música ao vivo ali) começou a cantar “sweet home A-LA-BURMA!”. Era pra ser o clássico americano “Sweet home Alabama”, mas o cantor era tai e ao tentar imitar o sotaque redneck o “a” do meio acabava soando como “u”.

Comprei a passagem a la Burma no dia seguinte.

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de Einstein a karaokê

Se no Camboja eu só senti amor pelas ruas, nos sorrisos iluminados daquela gente que simplesmente tem a energia certa, no Vietnã a coisa muda de figura. Eu sentia os extremos de uma pessoa para a outra, simpatia contagiante, vontade genuína de ajudar até grosseria gratuita de pessoas sendo pagas para fazer determinado serviço. É como se passeando num museu, na mesma parede, você apreciasse um quadro de Degas para logo se deparar com um Francis Bacon.

Na longa viagem de ônibus de Kampot, no Camboja (que partiu meu coração deixar), para Ho Chi Minh City, Vietnã, as pessoas ao meu redor se certificavam de que eu estava confortável na cadeira, faziam o gesto e me olhavam perguntando “não quer reclinar mais um pouco?” Quando entrava um ambulante para vender comida, me ajudavam a comprar o que eu queria e um senhor, vendo minha atolação, até pagou meu banheiro numa das paradas.

Em Ho Chi Minh City, onde você aprende a atravessar a rua como deve atravessar a vida, com passos confiantes, num ritmo constante e deixando todos os obstáculos, ou melhor, motoqueiros, desviarem de você, levei uns belos foras, mas também conheci a Snow. Continue reading

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xícaras girantes

Os pescadores navegam em barquinhos de palha que me fazem lembrar das xícaras gigantes dos parques de diversões da minha infância. Só que elas rodavam muito rápido e quando eu saía da xícara andava que nem bêbado dançando ciranda de tão zonza.

Os pescadores saem da praia de Cua Dai, em Hoi An, a cidade dos alfaiates. Todas as lojas, uma ao lado da outra, oferecem fazer qualquer roupa, de qualquer tecido, sob medida em apenas um dia. E a preços convidativos. Não tem como resistir e acabei fazendo dois vestidos e um tênis. Cá pra nós, a qualidade é ruim. E um dos vestidos, o de seda, ficou mal feito. Vamos ver quanto dura o resto…

Anyway, a praia é muito boa e dá pra ir de bicicleta. Eu pegava praia com os turistas de manhã e ficava até a hora dos locais, que vão à praia lá pras 16h30-17h, quando o sol já baixou (ter pele branca em todos os países da Ásia é sinal de beleza). É quando os restaurantes tiram as espreguiçadeiras e substituem por cadeirinhas de plástico para as famílias. E tudo vira uma deliciosa farofada.

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por trás do sorriso

Comprei um relógio com a cara do Hun Sen, atual primeiro ministro do Camboja, no mercado de Phnom Penh. Além de ser divertidamente kitsch, achei que poderia ser um bom gancho para falar da realidade do país e entender um pouco do que este povo sofreu durante o sangrento regime do Khmer Rouge.

Hun Sen está no poder desde 1985, é militar, corrupto, com características de ditador, mas, pelo menos, abriu o país à ajuda internacional. Não faltam ONGs no país, de todo tipo e toda índole.

Você não percebe a repressão no ar, mas as pessoas não conversam sobre política entre elas com medo do que pode acontecer. Com exceção dos jovens idealistas. Na verdade, não sei dizer se de fato existe tanta repressão ou se são os resquícios da paranoia que se retroalimenta. Sei que a sociedade ainda está se recuperando dos traumas do regime atroz do Pol Pot, onde cambojanos matavam cambojanos num ciclo doentio de terror e dor.

Uma visita ao museu do genocídio Tuol Sleng dá a dimensão da coisa. A então escola foi transformada em lugar de interrogatório e execução de milhares de pessoas. Nas salas de aula, a cama e os instrumentos de tortura, as paredes e chão manchados e a energia espessa da morte sofrida. No pátio, onde crianças se divertiam na hora do recreio, jarros de água para eletrocutar e forca. No outro prédio, salas povoadas de fotos em preto e branco de cada rosto, tiradas pelos soldados como forma de organização do próprio regime (assim como fizeram os nazistas). As fotos são hipnotizantes e assombrosas. Olhares de recém-torturados, que ainda seriam torturados de novo e de novo até a morte. Olhares de terror absoluto. Eles me acompanharam por vários dias depois e já não tive estômago para visitar outros locais como os “killing fields” (campos de extermínio).

Mas a estratégia do relógio funcionou e ouvi histórias incríveis de heroísmo e sofrimento, como a do prof. Long Sedtha, fundador da escola BFT onde dei aulas de inglês que, depois de torturado, peregrinou durante meses, fugindo e sem ter o que comer, mas recolhendo crianças órfãs pelo caminho (algumas morreram no trajeto), enquanto buscava desorientado um campo de refugiados na fronteira com a Tailândia. Lá ele ficou por 12 anos até se reerguer. Enquanto me conta, ele as vezes sorri revelando sua fortaleza, eu baixo o olhar tentando conter o choro.

Mais de dois milhões de pessoas morreram e hoje a população é praticamente de sobreviventes, onde todos perderam alguém próximo. É absurdo quando nos damos conta de que isso aconteceu recentemente, de 75 a 79, debaixo do nariz do mundo, que se fez de rogado.

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ambushing hellos

Sério, eu entendo a Angelina Jolie. No Camboja, você está andando e crianças lindas, doces e sorridentes de repente surgem nas janelas das casas, vêm correndo até o portão, passam de bicicleta, saem de trás das árvores, passam de moto com seus pais dirigindo, interrompem qualquer atividade simplesmente para te dar um animado “hello!”, ou melhor, vários. Mesmo que não queira, você passa o dia inteiro sorrindo.

A foto foi tirada durante uma tarde de chuva torrencial na minha guesthouse. São os filhos do dono que corriam pra lá e pra cá, inventando brincadeiras e pulando em todas as poças. Eu conheço a sensação, pois também adoro me molhar na chuva.

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not so lonely

Pelas calçadas de Phnom Penh um exército de crianças vende cópias de bestsellers e guias Lonely Planet. Lamentável e familiar a situação dos pequenos… Por outro lado, preciso dizer dizer que curto uma pirataria, esse jeito rebelde e mequetrefe de dar acesso a bens materiais e imateriais.

Eu comprei minhas cópias do Vietnam, Myanmar, Nepal e India não das crianças, mas numa lojinha da capital e também no mercado turístico, em Siem Reap. O preço depende do tamanho do livro, mas o normal é que custe de $3 a $5 dólares.

O guia realmente ajuda em muitas situações, mas também funciona como um tiro no pé. Você vai nas indicações do Lonely quando quer ir para (ou evitar) um lugar mais turístico, o que geralmente significa mais ajeitadinho, limpo e consequentemente mais caro. Ou seja, o guia é uma contradição ao pregar que é feito para o viajante independente quando cada lugar genuíno que indica passa automaticamente a ser turistão. É uma combinação de feitiço contra o feiticeiro com toque de midas.

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tal é a importância da astrologia

Que quando um casal de namorados decide casar, as mães dos noivos vão ao astrólogo para saber se a relação pode mesmo dar certo. Se a astrologia diz que não, o casal de namorados, por mais apaixonado que seja, separa-se. No Camboja, e em outros países asiáticos onde isso se aplica, cada um chora em silêncio e aceita a impossibilidade daquele amor.

Agora, imagina se fosse na América Latina? Os dramas e os choros escandalosos… Certamente alguns assassinatos de astrólogos apareceriam nas páginas de jornais.

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torcendo pra essa moda pegar

Não tem gente que usa camisola chique como vestido? Pois no Camboja a moda é andar de pijama. Soltinho, confortável e super colorido. Com desenhos do Mickey, ursinhos, flores, muitas opções para todos os gostos e bolsos: venha conferir!

Eu achava muito simpático, pois transmitia uma leveza cômica quase infantil em cenas prosaicas como uma moça trabalhando no mercado, esperando na fila do banco ou andando pelas ruas. Mas uma amiga australiana foi além e confessou que estava a ponto de comprar um: “onde mais vou poder andar de pijama pelas ruas?!”

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ensinamentos do Chico

Atravessei a fronteira do Laos de ônibus e muitas horas depois cheguei à Ban Lung, um ótimo começo no Camboja. A cidade não vale nada, mas em seus arredores vi cemitérios misteriosos de povos animísticos, que vivem a horas de distância descendo o rio. Vi a dura vida de quem busca pedras preciosas em túneis profundos e apertados debaixo da terra e, de passagem, fui num casamento tradicional, no meio da estrada.

No último dia, conheci a figura mais simpática da cidade: Chico. Ele é um jovem guia turístico e tem uma agência-restaurante. Na última noite, eu e dois amigos passamos horas ouvindo as histórias do Chico, suas visões políticas sobre a realidade do país e do mundo e suas metáforas e frases de efeito. Ele tinha uma para qualquer situação.

Eu me lembro desta: “Don’t live like the frog. Don’t die like the snake”.

Traduzindo: o sapo vive se escondendo no buraco. É como gente que não enfrenta a vida. E a cobra morde quando tem veneno, mas ao morrer, ninguém se importa. Simbolizando gente ruim.

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síntese do mundo

“And those who were seen dancing were thought to be insane by those who could not hear the music.”

Friedrich Nietzsche

A foto é um detalhe do incrível e polêmico White Temple, de Chiang Rai.

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